sábado, 29 de outubro de 2011

A morte do sr. Pimenta

Por força das circunstâncias, quando almoço durante a semana, faço-o muitas vezes sozinho. Há já alguns anos que é assim. Por conseguinte, adquiri um vício, não sei se saudável, de ler sempre o jornal enquanto como. Se já sei se o restaurante tem o jornal do dia, tudo bem. Se não tem, se está a maior parte do tempo ocupado, tenho que o comprar antes de lá entrar. Pode ser desportivo ou generalista, tenho é que ter um jornal.Pois bem, ontem não foi excepção e em Castelo Branco, no restaurante do meu amigo João, que no dia anterior ao jantar me havia, juntamente com outro amigo de longa data das vendas, presenteado com um fantástico fondue (e eu que até nem sei grande adepto desta modalidade, fiquei a abarrotar), sentei-me e peguei no Correio da Manhã. O jornal abre, como é habitual neste pasquim, com os "fait-divers" do dia anterior: roubos, acidentes, car-jackings, sentenças e julgamentos e outros crimes. Já não é fácil, infelizmente, alguma destas notícias me provocar alguma atenção em especial, mas eis que há uma que, de relance, me chama a atenção por causa do nome da vítima, "Pimenta". Na página 14, olho para a foto do local do crime, vejo sangue no chão de uma estrada e leio a legenda que pelo seu conteúdo, me faz olhar com atenção para a fotografia, tipo passe, da vítima e, em dois segundos, levo um murro no estômago que me roubou o apetite para a restante refeição. A vítima era de Castelo Branco, onde eu estava, e era meu cliente, um cliente, acreditem ou não, com quem tinha mesmo que falar durante esse dia (de manhã ainda não o tinha feito por falta de tempo, apesar de me ter lembrado várias vezes). É verdade.No dia anterior, durante o longo e já referido jantar, o João tinha-me falado de um crime violento em Castelo Branco. Ouvi onde tinha ocorrido, mas não prestei grande atenção. Mas saber pelo jornal a morte de alguém que conhecemos e de quem já tínhamos pensado nesse dia, bem, é mais uma sensação muito má que fiquei a conhecer. Segundo o jornal, o meu cliente tinha posto o vizinho em tribunal porque acusava-o de este o lhe ter morto o cão à paulada. Esse animal, não o cão, o vizinho do Sr. Pimenta, um ex-polícia, não gostou de receber a intimação judicial e já no dia anterior, segundo testemunhas, já tinha esperado pelo vizinho para um "ajuste de contas". Não se cruzou com o sr. Pimenta nesse dia e esperou pela manhã do dia seguinte. Já no carro, à saída para o trabalho, leva dois tiros do "animal". Consegue fugir 30 metros, mas os quatro ou cinco disparos seguintes são-lhe fatais.Começo a imaginar a cena, a cara do sr. Pimenta, o sofrimento, o seu último suspiro. Muito mau.Segundo relatos de vizinhos, as quezílias entre os dois eram antigas, mas uma morte assim, dá mesmo que pensar, mesmo que antes tenha lido na diagonal, o assassínio de um padeiro que morreu à facada defendendo os pertences do seu patrão.Segundo o trabalho jornalístico, o Sr. Pimenta, profissional e dedicado empresário com quem falava, pelo menos, uma vez por mês, usava capachinho (que eu sempre desconfiei) e era homosexual (coisa que nunca me passou pela cabeça). O assassíno, ao que parece, também não gostava desta sua característica.(Um aparte: Todos nós teremos alguns segredos que só se saberão após a nossa própria morte?)Magoou-me o desaparecimento do sr. Pimenta e o modo como ocorreu e como soube da notícia leva-me a pensar que afinal existem crimes que vêm no jornal que não são "apenas mais um".A consternação nos colaboradores da sua empresa era brutal pela morte dom seu sócio gerente e a eles me junto em sua homenagem.

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